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NOTA DE APRESENTAÇÃO
Rui Canário
A "questão" dos ciganos, em Portugal não é, obviamente, uma questão recente. Desde há muito eles têm vivido entre nós como uma comunidade "incompreendida" (ou seja, perseguida e discriminada). Mas esse facto, como se escreve num dos textos agora reunidos, não significa que a comunidade cigana seja necessariamente "incompreensível". A tentativa de produzir compreensão sobre esta realidade, procurando construir um olhar "com os olhos dos ciganos", constitui o principal e decisivo mérito desta iniciativa editorial que se inscreve na actividade que, no âmbito do Instituto das Comunidades Educativas, vem sendo desenvolvida pelo projecto Nómada. O carácter a vários títulos pioneiro e exemplar deste projecto é indissociável da inteligência, sensibilidade e persistência da sua principal responsável, Mirna Montenegro, que organiza este caderno.
A crescente visibilidade, entre nós, do "problema cigano" (com as suas manifestações de intolerância e racismo) inscreve no ressurgimento das questões étnicas como expressão de mutações de natureza económica e social que atravessam as sociedades ocidentais. Os trabalhadores africanos que , nos anos setenta, se integravam de modo funcional nos processos de crescimento económico, deixaram de ser encarados como mão-de-obra indispensável (trabalhadores imigrados) e passaram a ser encarados como "cabo-verdianos" (em Portugal), ou como "magrebinos" (em França). Este problema é, essencialmente, um problema com as segundas gerações, o que não autoriza a equacionar a questão em termos de integração social. O modo como tem vindo a evoluir (de forma negativa) a percepção das minorias étnicas exprime, no essencial, as mutações sofridas pela sociedade industrial e a correspondente reconfiguração da "questão social".
É também neste processo de desestruturação das relações sociais das modernas sociedades industriais, em que se assiste à desagregação do velho mundo operário, que se inscreve a emergência, em termos sociais e políticos, da questão dos ciganos. A crise da sociedade industrial e, em simultâneo, o desaparecimento de modos de vida e de subsistência pré-modernas, confluem para colocar em situação social de "risco" as comunidades ciganas. O problema dos ciganos é, portanto, indissociável da crise urbana, dos fenómenos de crescente desigualdade e dualização social. Ou seja, é uma questão de sociedade. Nessa medida, os problemas com os ciganos não são nem menores, nem periféricos, nem "dos ciganos". São o nosso problema.
As comunidades ciganas, com a sua especificidade maneira de viver e de pensar o mundo, incomodam fortemente o sistema escolar, intrinsecamente incapaz de lidar positivamente com a diversidade. A busca de soluções "pedagógicas" e "didácticas" específicas para trabalhar com os ciganos (ou com outras minorias étnicas) é um objectivo condenado ao fracasso. Os ciganos aprendem como toda a gente, com base num trabalho que realizam sobre si próprios, a partir dos seus saberes e experiências. É por isso que o objectivo principal da Oficina Romani é o "formar Homens antes de falar em formar ciganos" e a tentativa de adequar a formação ao público cigano "é meramente uma consequência natural, se o interesse e a preocupação por essas pessoas são verdadeiras".
Se os ciganos aprendem como toda a gente, o mais interessante na análise4 das dificuldades da escola face aos ciganos é considerar essas dificuldades como um analisador das limitações da instituição escolar que historicamente criámos e, por outro lado, do carácter inadequado e retrógrado do olhar etnocêntrico que estrutura a nossa relação com os que são diferentes de nós. Intervir, em termos educativos, junto das comunidades ciganas para então a significar um modo de aprender com elas, nomeadamente a ver, de modo mais lúcido e critico, os limites da nossa acção e os constrangimentos criados pelos nossos preconceitos.
Quando se lêem os diversos testemunhos e apresentações de experiências de trabalho educativo com comunidades ciganas, torna-se imediatamente evidente que estamos não perante os "problemas dos ciganos", mas sim perante os problemas de fundo que hoje podemos colocar à escola. A divulgação destes testemunhos e destas experiências têm, sobretudo, o interesse de mostrar como a construção de respostas educativas pertinentes para a diversidade dos públicos escolares (nomeadamente quando a diversidade assume contornos étnicos) passa necessariamente, pela superação da forma escolar, o que significa:
Valorizar os saberes e experiências das crianças, passando de uma lógica que privilegia os requisitos prévios para outra que coloca como central a questão do sentido do trabalho escolar. É nesta perspectiva que a formação do professor ou educador consiste no essencial em ser capaz de reconhecer e gerir a contradição de que, como escreveu Cristina Passos, "o que os alunos queriam aprender não era o que eu queria ensinar";
Reconhecer que não há uma separação estanque entre o mundo das crianças e dos adultos, o que, necessariamente desloca a acção do terreno didáctico e da relação dual professor-aluno para o terreno da interacção social com o conjunto da comunidade ciganas. É deste ponto de vista que é possível rejeitar o postulado, habitual, sobre a incompetência educativa das famílias, passando a encará-las como sujeitos (e parceiros) da acção educativa;
Conceber de uma outra forma os espaços e os tempos da acção educativa, valorizando os aspectos não formais da acção educativa e as estratégias de animação como estruturantes de qualquer projecto de intervenção educativa. Esta maneira de ver conduz a pôr em causa a tradicional hegemonia educativa da instituição escolar evidenciando a importância educativa de outras instituições e espaços sociais. É deste ângulo de análise que deve ser apreciada a importância e interesse das Animações de Mercados, realizadas no quadro do projecto Nómada;
Criar situações educativas que, ao contrário das situações escolares tradicionais, possam ser marcadas pela reversibilidade dos papéis educativos. Não se trata de desenvolver modalidades pedagógicas "mais activas", mas sim de construir dispositivos de interacção social em que todos os intervenientes podem aprender uns com os outros (professores, educadores, crianças e jovens, adultos, famílias).
Se a instituição escolar for capaz de acolher os ciganos e, parafraseando António Sérgio, "não lhes fizer mal", já não será mau ("grande programa, não fazer mal"). Mas as nossas ambições são outras. Como escreveu Mirna Montenegro, a tarefa dos intervenientes do projecto Nómada é a de transformar a motivação das crianças ciganas para "deixar de ir à escola por obrigação e passar a ir à escola por prazer" Grande programa...Só para os ciganos?
Instituto das Comunidades Educativas