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NOTA DE APRESENTAÇÃO
Rui Canário
O nascimento e consolidação dos sistemas escolares públicos aparece, do ponto de vista histórico, estreitamente associado à emergência dos Estados Modernos, na transição do Antigo Regime para as sociedades liberais. A partir do século XIX (o "século da escola"), a constituição de uma malha apertada de escolas públicas nas zonas rurais emerge como um factor de progresso, com uma forte marca simbólica: a escola é um factor de identidade da aldeia. Hoje, o futuro das pequenas escolas rurais está ameaçado. Se, para alguns, a escola rural está condenada, em nome da "modernização" e do "desenvolvimento", outros têm evidenciado quer os efeitos, profundamente negativos, de uma politica de sistemático encerramento de escolas, quer as potencialidades do papel da escola num processo de revitalização do mundo rural. O debate é vivo e envolve autoridades escolares, parceiros locais, profissionais da educação.
Esta situação está bem presente na realidade portuguesa actual e foi amplamente documentada no primeiro volume dos "cadernos ICE", consagrado ao Projecto das Escolas Isoladas. A presente publicação, Escola Rural na Europa, surge na sequência desse volume e pretende apresentar a um público vasto (professores, educadores, autarcas, pais, decisores) uma panorâmica da dimensão europeia do problema.
Em Março de 1994, cerca de duas dezenas de associações e organismos europeus (incluindo o ICE), implicados na problemática da escola rural, reuniram-se em Estrasburgo, no Parlamento Europeu, para trocar experiências, pontos de vista e reflectir sobre a possibilidade de empreender acções comuns. Esta reunião, pioneira, realizou-se por iniciativa francesa dos CRESPC (Centros de Investigação sobre as Pequenas Estruturas e a Comunicação) e da FNDPER (Federação Nacional de Defesa e Promoção da Escola Rural), a convite do Grupo dos Verdes, no Parlamento Europeu.
A concepção deste volume e a decisão de publicação têm a sua origem nessa reunião e nos contactos então estabelecidos. A partir de um conjunto, diversificado de contribuições, de professores e investigadores de diferentes países europeus, pretende-se contribuir para reequeacionar a questão da pequena escola em meio rural, ultrapassando uma visão redutora que tende a restringi-la a uma opção de "racionalização" da rede escolar.
O debate sobre as pequenas escolas, em meio rural, tende a ser colocado em torno de duas questões: por um lado o da sua viabilidade económica, em termos de custos, e, por outro lado o da qualidade pedagógica so serviço prestado. O primeiro texto, "Elementos para uma reflexão nova sobre a escola rural", a autoria de Alain Mingat e Cédric Ogier (Instituto Universitário de Dijon), tendo como base trabalhos de investigação empírica, põe em causa algumas ideias feitas neste domínio: por um lado coloca em evidência o valor da heterogeneidade das turmas (com vários níveis) enquanto ambiente propicio à realização de melhores aprendizagens, por outro lado, a partir da consideração dos "custos totais" refuta a ideia de que o encerramento das pequenas escolas seria, necessariamente, a solução mais económica.
O segundo texto, "Estado, escola e crise dos espaços rurais" é da autoria de Yves Jean (universidade de Tours) cuja visão autorizada, de professor e autarca, tem o mérito de recolocar o debate num âmbito que transcende claramente as dimensões "técnica" e "escolar". O problema da escola rural deve ser entendido, fundamentalmente, como uma aspecto parcelar no crescimento económico. O encerramento das escolas (e de outros serviços públicos) agrava o problema, apressando a morte rápida e irreversível das comunidades rurais.
O terceiro texto "Uma proposta pedagógica para a escola rural" é da autoria de Philippe Meirieu, conhcido e prestigiado pedagogo francês (universidade de Lyon). A partir de uma análise crítica da instituição escolar tradicional, este autor propõe-nos uma reflexão pedagógica global sobre as modalidades e a construção de sentido para p trabalho escolar. À imagem da escola rural como um lugar "obsoleto" contrapõe Meirieu uma outra visão em que ela aparece como o embrião de uma "escola nova", e a classe única como o lugar privilegiado para a aprendizagem da cidadania.
São justamente estas virtualidades pedagógicas da escola rural que os dois textos seguintes procuram enfatizar: Thérèse-Marie Bouchat (universidade Católica de Luvaina), tendo como referência a realidade belga, descreve "Um dia tipo numa pequena escola rural" inventariando, de modo sistemático, as suas vantagens comparativas.
Na perspectiva da realidade francesas, Jean-Michel Calvi escreve um texto "A escola, uma estrutura em osmose com o seu meio ambiente" que exprime a sua experiência como professor do ensino primário, numa região de montanha. Enfatizando uma relação interactiva com o contexto local, Calvi encara a escola rural como um "laboratório" cujas práticas são portadoras de futuro.
Maria José Hervás, também professora do ensino básico em meio rural, é autora do sexto texto: "Uma alternativa para a escola no meio rural". Relata-nos uma experiência pedagógica, em curso há já vários nãos, numa região espanhola, envolvendo a cooperação de uma grupo de escolas e uma equipa de professores. O trabalho cooperativo dos professores é fortemente valorizado na sua dimensão formativa, aparecendo o projecto como uma verdadeira "escola de formação permanente para professores".
Finalmente o sétimo texto, "O agrupamento em rede: uma solução para as pequenas escolas?", é assinado por Alan Evans e Linda Huckman, professores e investigadores da Universidade de Cardiff. Fala-nos de uma realidade, Inglaterra e Gales, mais distante da nossa experiência directa, mas em que se colocam problemas de natureza idêntica. Também estes autores realçam a influência da pequena escola rural na vida das aldeias e comunidades e a necessidade de encontrar alternativas ao seu encerramento. A construção de redes de escolas, apoiadas por instituições do ensino superior, e articuladas com estratégias de formação em serviço, é a ideia estruturadora deste texto.
Uma palavras final de agradecimento, para os autores e as entidades cuja colaboração tornou possível a edição deste volume. A Federação Nacional para a Defesa e Promoção do Mundo Rural autorizou a tradução e adaptação dos textos de Yves Jean, Philippe Meirieu e Jean-Michel Calvi, originalmente apresentados ao colóquio "Escola Rural, escola nova", realizado em Abril de 1993. O texto de Thérèse-Marie Bouchat corresponde à adaptação dos dois primeiros capítulos da obra "Les voix de l'école rurale", publicada em 1992 pelas Edições Vie Ouvrière e pelo CREDAR (Centro de Estudo e Documentação para a Animação Rural). O texto de Maria José Hervás corresponde a um artigo publicado, originalmente, no nº211 de 1993 de "Cuadernos de Pedagogia". Os dois textos restantes são inéditos.
Ao reunir e publicar este conjunto de trabalhos estamos convictos de contribuir para um aprofundamento da reflexão, do debate e da acção, num domínio educativos que tem um forte alcance estratégico. Questionar o futuro, repensando modelos de sociedade e de desenvolvimento (ainda) dominantes, neste fim de século. Apressadamente condenada por alguns, em nome de uma certa ideia de "progresso", a escola rural pode emergir como um pólo de desenvolvimento local e de renovação das práticas educativas.
Instituto das Comunidades Educativas